No século XIX a Inglaterra da Revolução Industrial era a potência mundial em busca de mercados para seus produtos e recursos para financiar sua expansão. Já a China era uma civilização fechada, autossuficiente e com uma economia robusta baseada na prata. Essa autossuficiência tornava a China uma “pedra no sapato” do sistema capitalista emergente liderado pelo Ocidente.
Com estratégias tiradas do manual da Arte da Guerra de Sun Tzu o império inglês começou a contrabandear ópio da Índia para a China, criando uma epidemia que corroeu a saúde, a economia e a moral do país. Isso levou às Guerras do Ópio (1839-1842 e 1856-1860), onde a China foi humilhada militarmente e forçada a assinar os infames Tratados Desiguais.
É o que mostra o livro As Guerras do Ópio na China e os Tratados Desiguais, de Durval de Noronha Goyos Jr. O livro escancara os conflitos que moldaram as relações sino-ocidentais, com destaque para o papel da Inglaterra no tráfico de ópio e as consequências devastadoras para a China. Com uma análise precisa e documentada, o autor revela como o uso de narcóticos foi uma arma geopolítica para enfraquecer uma potência milenar, criando cicatrizes e ressentimentos que subverteram a alma chinesa e que repercutem até os dias de hoje.
O uso do ópio como arma geopolítica demonstra o modus operandis das potências coloniais. A estratégia britânica visava minar a moral da China enquanto drenava sua prata, criando uma dependência econômica e social que justificava intervenções militares e políticas. Essa prática ecoa nas táticas modernas, onde a manipulação econômica, tecnológica e cultural é usada para enfraquecer rivais.
Parte desta estratégia adotada pela Inglaterra saiu de um antigo livro, um manual de guerra escrito há mais de 2.000 anos por Sun Tzu: A Arte da Guerra. Quando diz que: “Se queres conquistar o inimigo sem luta, enfraquece sua moral, divide suas alianças, destrói sua capacidade de resistência antes mesmo de iniciar o confronto direto”.
Embora escrito há mais de dois milênios, esse princípio estratégico foi aplicado de maneira sombria e implacável pela Inglaterra nas Guerras do Ópio contra a China. O que soa irônico pois Sun Tzu era um general e estrategista chinês.
Durval de Noronha afirma que: “O ópio foi o instrumento de destruição de uma nação milenar, uma guerra sem armas convencionais, mas com resultados devastadores, destruindo não apenas corpos, mas a alma de um povo.”
Durante as Guerras do Ópio e o auge do comércio dessa droga na China, os ingleses implementaram uma estratégia sofisticada e destrutiva para introduzir o ópio na sociedade chinesa. Eles aproveitaram as estruturas sociais e culturais do país, incluindo os bordéis e a elite chinesa, para expandir o consumo e a dependência da substância. Os bordéis, frequentados por comerciantes, altos funcionários e membros da elite local, tornaram-se pontos-chave para a introdução do ópio. Esses locais eram culturalmente aceitos como espaços de entretenimento e lazer, mas os britânicos, por meio de intermediários, os transformaram em centros de disseminação do vício.
As concubinas e prostitutas eram incentivadas a fumar ópio para agradar seus clientes, criando um ambiente onde o consumo era normalizado. A prática de fumar ópio era romantizada nesses espaços, associada a um estilo de vida luxuoso e prazeroso, o que atraía ainda mais consumidores. Ao introduzir a droga nesses círculos, os comerciantes britânicos garantiam que o vício se espalhasse para as camadas mais altas da sociedade, que tinham poder aquisitivo para sustentar o comércio lucrativo. Isso também criava uma dependência que minava a moral e a eficácia dos líderes e altos funcionários do governo.
A sociedade chinesa começou a ridicularizar esses funcionários, chamando-os de fracos e incapazes de proteger os interesses nacionais. O governo imperial, cada vez mais desacreditado, enfrentava dificuldades para manter o respeito e a obediência do povo, agravando a crise de legitimidade da Dinastia Qing.
Também foi expediente usado pela Inglaterra durante as Guerras do Ópio o mandamento de Sun Tzu: “Quando o inimigo estiver relaxado, faça-o sofrer; quando estiver satisfeito, faça-o passar necessidade”.
A Inglaterra, ao inundar a China com ópio, cumpriu exatamente esse mandamento. A Dinastia Qing, autossuficiente e complacente em sua força cultural, viu-se incapaz de reagir a tempo, enquanto a Inglaterra mantinha uma vantagem estratégica ao lucrar com o comércio da droga e impor condições desiguais nos tratados subsequentes.
A derrota nas guerras marcou o início de um século de humilhação para a China, com perda de territórios, aumento da influência estrangeira e um ressentimento profundo contra o Ocidente. A perda de soberania e a imposição dos Tratados Desiguais simbolizam a submissão forçada de uma potência que, até então, via a si mesma como o umbigo do mundo.
A China passa a ser humilhada. Outros povos do oriente tratam os chineses como cidadãos de terceira categoria e o orgulho e o decoro que mantiveram o império do meio até então são substituídos pelo escárnio mundial. A nação que deu ao mundo um sistema filosófico e moral, que criou a porcelana, o papel, a seda e a pólvora agora se tornou insignificante no contexto moderno e já não havia mais motivos para se ter orgulho de ser chinês. Demoraria mais de um século e uma revolução sangrenta para que a China se tornasse um player no tabuleiro da geopolítica novamente.
O autor conecta essa humilhação ao renascimento chinês sob Mao Tse-Tung e ao atual projeto de Xi Jinping de tornar a China uma superpotência.
É bom lembrar que este ressentimento histórico ainda é presente no imaginário chinês e molda a postura assertiva da China no cenário internacional. A criação do BRICS, a defesa de um sistema financeiro alternativo ao dólar e a Nova Rota da Seda são respostas diretas à tentativa de reduzir a influência ocidental. Xi Jinping lidera com o objetivo claro de resgatar a grandeza chinesa, mas seus métodos autoritários e expansivos preocupam o mundo.
Durval de Noronha Goyos Jr. oferece uma análise que conecta o passado colonial ao presente geopolítico. É leitura obrigatória para quem deseja compreender a ascensão da China após o Século de humilhação e sua relação conturbada com o Ocidente, ajudando-nos a decifrar o tabuleiro global do século XXI.
Paulo Albuquerque – Formado em Tecnologia Florestal, instrutor de informática e conectado em Literatura, Sci-Fi e Cultura Pop.