Lembro-me do rastro de perfume amadeirado que meu tio deixava por onde passava, misturado às melodias que ecoavam pela casa da minha avó. Ele, com voz grave e um uma gargalhada fácil, era um dos meus faróis, juntamente com meu pai e meu avô aquele homem me ensinou e ainda ensina a diferença entre a firmeza por amor e o ser agradável por aparecia.
“Menino, a cultura é a raiz da sabedoria, a leitura é a bússola que te guia”, dizia ele, enquanto me mostrava os meus livros de história e as paisagens nas enciclopédias. “A disciplina é o alicerce que te impede de ser levado pela correnteza da ignorância”. E, entre um livro e outro, cantarolava antigas canções, com a voz forte e o coração aberto, sempre vinha um bolero ou samba canção, que embalavam o aprendizado…; “quem sou eu para ter direitos exclusivos sobre ela…” quase um hino nas manhãs de domingo.
As lições não vinham em forma de sermões, mas sim de histórias e exemplos. Ele me ensinou a importância do conhecimento, não como uma obrigação, mas como uma aventura. “Até mesmo as histórias do Tio Patinhas podem te ensinar sobre ambição e perseverança”, ele dizia, com um sorriso maroto, enquanto folheávamos as páginas amareladas das revistas em quadrinhos favoritas. Hoje quando escuto “O Caderno”, de Toquinho, me faz refletir sobre a importância de aprender e crescer e sempre me volta a mente aquelas passagens.
As broncas, ah, essas eram como tempestades de verão: intensas e passageiras. “Um homem de verdade assume seus erros e aprende com eles”, ele rugia, após um tropeço meu. Mas, logo em seguida, me abraçava com força, um gesto que valia mais que mil palavras. E, para selar a paz, entre uma lagrima e outra saíamos sorrindo, o que demonstrava que apesar dos pesares, o amor sempre prevaleceu. Com o passar dos anos me tornei pai, e as peças do quebra-cabeça da minha infância começaram a se encaixar.
As conversas, os puxões de orelha, as risadas compartilhadas, as canções, os quadrinhos, os livros, os desenhos animados em fim…tudo era parte de um plano maior, uma sinfonia de amor e sabedoria que me moldou no homem que sou hoje e olha que vez por outra ainda hoje ele muito me ensina com exemplos e com atitudes. Hoje, quando olho para os meus filhos, vejo o reflexo das lições daquele meu tio/padrinho em meus ensinamentos é a passagem do bastão.
Aquele homem de personalidade forte e de bom coração, me ensinou a amar com a mesma intensidade com que me repreendia. E, no silêncio da minha gratidão, sussurro um “obrigado tio”, sabendo que ele me ouve de alguma forma, com um sorriso de cumplicidade e orgulho, talvez cantarolando baixinho “A Paz”, de Gilberto Gil.
Diogo Augusto , o turco, marido, pai, empreendedor, colecionador, pensador, curioso.
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