Albert Camus foi um autor Franco-Argelino que se notabilizou pelos seus romances que, segundo a crítica, reforçam a máxima de ter o absurdo como o ponto de partida de suas considerações. A vida é destituída de qualquer sentido e as coisas existem como são: o mundo, o homem e a natureza, um eterno Mito de Sísifo que passa a vida rolando a pedra da base até o topo da montanha e nada pode ser feito para mudar isso. Assim ao reconhecer este absurdo que é a nossa vida e a impossibilidade de dissolvê-lo, é preciso viver com ele, da melhor forma possível.
Já falei sobre o seu romance mais conhecido “O Estrangeiro”, mas Camus também escreveu o ótimo livro a “A Peste” no período pós Segunda Grande Guerra Mundial.
Em A Peste (1947), Camus situa a ação na cidade argelina de Orã, a obra narra a irrupção de uma peste bubônica e o impacto no cotidiano, nas relações humanas e na psique coletiva. Camus utiliza a peste como metáfora para a condição existencial humana e os desafios de um mundo absurdamente indiferente.
O paralelo com a pandemia de Covid-19, que abalou o mundo em 2019, é imediato e perturbador. O estado de medo e incerteza, o isolamento forçado e a luta por sentido em meio à tragédia ressoam poderosamente com a o texto de Camus. A obra revela como as sociedades enfrentam crises não apenas como um problema médico, mas como uma experiência profundamente humana e política. A partir de um evento local em uma nação satélite da França às margens do Mediterrâneo Camus constrói uma narrativa atemporal que transcende o contexto histórico de sua criação, tornando-se um prisma para compreender crises globais. A narrativa de A Peste acompanha o médico Bernard Rieux e outros personagens enquanto lutam contra a epidemia em Orã. À medida que a peste se alastra, a cidade é isolada, os mortos se acumulam, e os personagens enfrentam dilemas morais e existenciais. Alguns, como o padre Paneloux, veem na peste uma punição divina; outros, como o jornalista Rambert, buscam escapar da cidade em nome do amor. Rieux, no entanto, representa o espírito do esforço humano, comprometido com a luta contra a peste mesmo quando parece impossível vencê-la. Aqui vemos Camus na essência explorando o absurdo da existência: a vida carece de sentido intrínseco, mas os seres humanos, conscientes dessa ausência, encontram força na solidariedade e na resistência ao absurdo.
Camus escreveu A Peste em um mundo devastado pela Segunda Guerra Mundial, ecoando o niilismo e a absurda luta pela sobrevivência em tempos de calamidade. Ao comparar essa obra com a pandemia de Covid-19, percebemos como as respostas humanas permanecem incrivelmente semelhantes. Durante a pandemia, vimos a solidariedade emergir em meio ao caos, mas também testemunhamos egoísmo e desigualdade no acesso à saúde, elementos que também permeiam a narrativa de Camus.
No livro há uma quarentena em Orã, em 2020 o lockdown é aplicado e aceito em todo mundo. Em ambos os eventos os indivíduos são forçados a confrontar sua fragilidade, a efemeridade da vida e o papel das instituições frente à crise. A quarentena, como descrita por Camus, é a metáfora para o isolamento emocional e filosófico que as crises existenciais impõem.
Nas duas situações as pessoas prendem o fôlego e arregalam os olhos e cresce a sensação de terror. A morte, onipresente, desencadeia tanto o pânico quanto a negação. O ritmo do cotidiano é brutalmente interrompido, expondo as estruturas frágeis de nossas sociedades. Camus demonstra que, mesmo diante do absurdo, a humanidade se redefine através de atos de bondade, amor e resistência, ainda que sem garantias de sucesso.
Outro fator escancarado tanto na narrativa de Camus quanto na pandemia de Covid-19 é a desigualdade social. Ambas as crises revelaram que, em tempos de calamidade, os sistemas políticos e econômicos podem falhar em proteger os mais vulneráveis.
Em alguns momentos do livro Camus soa mais estoico que niilista, seu texto não é resignado. Ele nos ensina que, mesmo quando confrontados com a morte e o absurdo, a resposta humana mais digna é a resistência. São as questões filosóficas levantadas por Camus: como viver em um mundo onde a dor e a morte são inevitáveis? O livro aponta para uma contínua reafirmação da vida, por mais frágil e absurda que ela seja.
Paulo Albuquerque – Formado em Tecnologia Florestal, instrutor de informática e conectado em Literatura, Sci-Fi e Cultura Pop.
Foto: Reprodução